Me lembrei que o mundo fica ainda pior...
Ô vida!
Vivendo e reaprendendo
A bebida é uma grande curativo para os males do mundo. Eu havia me esquecido disto.
Coxa, STJD, imprensa e o positivismo legalista
Continuo o tópico sobre o episódio do Couto Pereira (ver dois ou três posts abaixo), porém agora com outro enfoque.
Passando canais, parei no Arena SporTVglobo e não deu outra: estavam falando sobre a punição do STJD ao coxa. Foram 30 jogos de perda de mando mais uma multa de 600mil reais. Um advogado novo, pelo telão, levantou questionamentos óbvios, porém pertinentes (até porque pra muita gente pode não ser tão óbvio). Indagava ele, se essa multa que iria para os cofres públicos seria revertida em segurança nos estádios ou em medidas preventivas. Questionava, ainda, se a punição seria efetiva em seu suposto objetivo: evitar que o acontecimento se repita.
Os três comentaristas de futebol (ainda bem que são comentaristas de futebol) tentaram adentrar no assunto. Todos foram unânimes em afirmar que a pena não deve ser abrandada para servir "de exemplo" para que isso não se repita. Apenas o apresentador/mediador tinha uma opinião que parecia divergir um pouco, sorte a dele. Não é de hoje o enorme erro cometido pela sociedade e seus atores ao achar que o problema da injustiça é a falta da forte punição. No caso em questão, a punição se limita ao clube, até por questões de limite da justiça desportiva. Mesmo assim, penso que haveria medidas alternativas mais interessantes a serem tomadas pelo tribunal. Perda do mando de campo, sim. Porém, para que o clube aplicasse esses 600mil de forma comprovada em medidas preventivas de segurança (aumento dos fossos, melhoria do sistema de saída/circulação, sistema de câmeras internas etc, só para citar exemplo). Com isso, a finalidade da aplicação da norma seria o interesse comum: manter o cidadão seguro em sua ida ao estádio. Mas não, querem apenas o exemplo. Resultado: o time está em crise financeira, política e de imagem por conta de bandidos que por acaso "torcem" por esse time e pode piorar caso fique na segundona ou até caia pra terceira. Os "torcedores" com a ajuda do STJD estão punindo um clube e sua história que pagam como bode espiatório de uma injustiça generalizada.
E não me espantarei em assistir a um depredamento de um estádio "neutro" ano que vem pelos mesmos torcedores em uma possível queda a série C.
E todos afirmam: é exemplo! Exemplo pra quê? Pra quem? Alguém está vendo os outros clubes preocupados em melhorar a segurança de seus estádios com medo de repreensão? Lógico que não, é óbvio. Vou além: os serial killers pararam de matar quando descobriraram que poderiam ser fritados (literalmente) por isso? O exemplo estava lá: gente queimando com os olhos pulando pra fora. Dá pra ver filme pela internet ou até alugar na locadora. O exemplo resolveu? Acho que a história demonstra que não.
Terminando por onde comecei, a monografia, foi exatamente essa visão errada do Direito que combati durante a Faculdade e defendi no projeto final. O Direito não existe para resolver o problema da sociedade. Ele existe (ou deveria existir) para minimizar esses problemas. Na prática, ele acaba sendo mantenedor da ordem vigente, dos status quo. Mas acreditar que uma aplicação rígida da lei mudará o comportamento de bandidos, de vândalos, de corruptos e por aí vai é uma grande ingenuidade. Diminuir, ainda podemos cogitar, mas resolver: jamais. Ou alguém acha que haveria menos violência no Brasil se tivéssemos pena de morte? Os corruptos do poder seriam menos gananciosos com medo da justiça e abririam mão de suas mansões e carros de luxo?
Parafraseando Stan Smith do seriado American Dad: "Guns don´t kill people, people kill people". E é por aí...
O Direito não muda a sociedade, a sociedade talvez possa mudar a sociedade se liderada por movimentos em todos os setores: educação, saúde, meio ambiente, diminuição da desigualdade, etc.
Se vivêssemos de exemplo, nós, brasileiros, seríamos todos - sem excessão - ladrões, corruptos e bandidos pois é esse o exemplo que vemos na TV todo santo dia.
2001: uma odisséia no espaço
Bom, primeiramente acho que a classificação ficção científica não é suficiente para o gênero. O filme é recheado de suspense beirando, às vezes, o próprio terror. Além disso, é uma filmagem extremamente artística, quase despreocupada com o espectador. Isso pode passar um certo ar pretensioso, e passa.
Os efeitos do filme são incríveis, especialmente quando pensamos nas técnicas à disposição em 1968. Apesar do HAL900 (computador elemento central do "ato 2" do filme), não havia computadores disponíveis para edição e criação de cenários, efeitos visuas, etc. As "paisagens" do universo são extremamente convincentes e a música acompanha o filme com brilhantismo, grande característica dos filmes de Kubrick. É propositalmente lento, o que o torna às vezes cansativo e sonolento mas não necessariamente monótono, apenas lento. São três atos ligados por um objeto (monolito) misterioso e que detém algum poder sobre os "animais": no primeiro, a descoberta da arma pelos macacos ainda na pré história. Em seguida, o duelo de homem e máquina, os primeiros sinais da inteligência artificial e das preocupações com a dependência do computador. Várias passagens são visionárias, como o computador ganhando do cientista no Xadrez. Registre-se que o primeiro computador capaz de processar informações suficiente para ganhar de um grande jogador só foi criado em meados da década de 90, aproximadamente 30 anos depois.
A última passagem é demasiadamente psicodélica. Parece uma viagem de ácido (embora nunca tenha tido) ou de qualquer droga alucinógena. Chega a ser angustiante. No fim das contas, pouca gente, ou talvez ninguém, entenda realmente a mensagem do filme, sensível em demasia. Parece-me de fato que é uma visão bem artística do cinema onde imagem, som e sensações superam o roteiro e a história propriamente dita. Há quem goste, há quem não goste. Indiscutível é sua importância para o cinema.
Finalizando, acho uma experiência extremamente válida. Não é o tipo do filme que veria várias vezes com gosto, mas também não gostaria de não tê-lo visto. É importante conhecer para poder entender a história da ficção científica e enxergar a base para centenas de outros filmes posteriores que, muitas vez com mais orçamento e tecnologia, não foram nem de perto tão instigantes e provocadores.
As interpretações, porém, para mim, são apenas devaneios de uma mente brilhantemente louca.
A TV como ela é
Pensem comigo: o que a televisão mais mostra em sua programação e o povo gosta de assistir? Futebol, violência (que sempre recheia os jornais e os filmes), reality show (já estamos no BBB 10!) e o melhor: tudo ao vivo, a cores, com narração e comentário. É como juntar todos os programas de maior ibope da rede globo/sportv e colocar num único pacote. Durante aquelas dezenas de minutos esqueci que o Flamengo havia sido campeão. Meu maior pensamento era: tudo o que eu queria era estar lá como policial. Não desarmados, acanhados e em minoria como os que estavam, mas armado e louco pra descer o cacete naquele bando de covardes sujos que descontavam sua frustração batendo em meia dúzia de policiais pacatos. Eles mereciam uma temporada com a polícia carioca, certamente o inferno deles, quando morrerem, será viver eternamente em um vasco e flamengo logo na entrada tomando cacetetada na cabeça dos guardas que cavalgam elengantemente em seus pocotós. Já o meu segundo pensamento, menos reacionário, foi constatar mais uma vez a desgraça da condição humana: gente se matando a troco de nada, a violência gratuita e passional, do pior tipo.
Altruísta foi o vascaíno que ao ver o seu time cair, ameaçou se matar. Contanto que não caísse em cima de nenhum civil, não vejo nenhum problema no gesto, muito mais próximo ao amor pelo time e ao desespero da derrota do que o estrelado por esses bandidos do couto pereira.
O que mais me chamou atenção, para finalizar, foi o fato de narrador e comentarista passarem quase meia hora classificando o episódio de lamentável, triste, degradante, terrível, anti-desportivo, bla bla bla enquanto as câmeras buscavam sempre o melhor ângulo para mostrar a violência ali, nua e crua. Narravam o PM estendido no chão, as agressões a jogadores, árbitros: "É com você, fulaninho do gramado!" e já se tinha uma conexão imediata com um repórter no meio da briga. Não cortaram a transmissão, ninguém da imprensa saiu do estádio com medo, apenas buscavam a melhor foto e a melhor informação. Jornalismo sério, a TV como ela é.
Andrade: o 1º técnico negro campeão brasileiro
Aspectos de interessante reflexão:
O Dunga, atual técnico da seleção, é um gaúcho tipicamente "branquinho" e foi um dos mais rejeitados da história do futebol brasileiro. Em comum com o Andrade, Dunga é ex-jogador de futebol, não tinha nenhuma experiência real como treinador e era uma aposta incerta. Ambos foram colocados à prova e, coincidentemente, foram bem sucedidos em seu trabalho até então. Ninguém gosta mais do Dunga na seleção do que o Andrade no Flamengo porque ele é branco, certo?
O técnico revelação do campeonato 2009 foi o Silas, do Avaí (à esquerda).
Ele é negro ou branco? Eis a questão: será que o gaúcho de olhos claros do corinthians, Mano Menezes (à direita), é mais bem visto pela mídia e/ou pelos torcedores, mesmo sendo às vezes mais arrogante e com um estilo mais "durão"? Quem é quem nesse jogo de xadrez? Quem é negro, quem é pardo, quem é mulato, quem é branco? O que eu acho mais interessante de toda essa discussão é o seguinte: ao considerar Andrade o primeiro técnico negro campeão do Brasil, temos que entender que, por exemplo, Joel Santana, Vanderley Luxemburgo (ambos com fotos abaixo), entre outros campeões, são puros arianos. Ah não, eles são pardos, alguns dirão, e por isso não contam. E a vida dos "pardos" é mais fácil então?A única conclusão que eu chego é que o preconceito está aí, isso é fato. Mas o ponto de partida é a própria mídia que, baseada em critérios duvidosos, cria manchetes como essa que, ao invés de fazer o povo refletir, só aumenta a visão ultrapassada de "raças", separando pessoas pelo seu "bronzeado". Tirem suas conclusões:



Aqui no Brasil, pelo menos, é tudo mundo negro. Uns mais, outros menos. Assim como são todos pobres (à excessão de uma pequena parcela de afortunados) e, da mesma maneira, uns mais e outros menos. Se você não pode parar de trabalhar porque morrerá de fome, então você é pobre. A dificuldade está aí da mesma maneira: maior ou menor dependendo de uma enorme quantidade de variáveis.
Pelas razões expostas, proporia que mudassem a manchete para: Andrade, o primeiro técnico negão campeão brasileiro ou ainda Andrade, o técnico mais negro campeão brasileiro. Ou isso, ou teremos uma visão antiquada e binária de raças baseado na separação branco/negro. Porque se ele é o primeiro negro, todos os outros eram brancos, independente, por exemplo, de descenderem diretamente de um negro (pai ou mãe). Trabalho jornalístico porco, de segunda.
Ao Andrade, parabéns pelo trabalho que não foi melhor nem pior do que seria se ele tivesse menos "bronzeado" ou cabelos mais lisos.
O brasileiro
Deu em todos os jornais: o brasileiro está mais alto e mais gordo. E eu que, infelizmente, fiquei apenas mais gordo, estou sentindo-me diminuído. O compatriota tem 1,70, em média; tenho só 1,69 - todos os dias. Tudo bem, tudo bem, o brasileiro está feliz da vida e não serei eu, o baixinho-nervoso, a estragar sua alegria.
Por que a alegria? Ora, o brasileiro não está só crescendo e engordando, mas comprando carros e casando-se adoidado. Segundo as montadoras, de janeiro a outubro, foram mais de dois milhões e meio de automóveis vendidos. De acordo com o IBGE, no ano passado, houve 959.901 uniões registradas. Sem contar as não registradas, como a minha: posso ser baixinho, nervoso e barrigudo, mas consegui amasiar-me com uma brasileira muito jeitosa, na média da estatura nacional e um pouco abaixo do peso - embora reclame constantemente de umas gorduras localizadas não sei onde, pois nunca vi.
Com sobrepeso e o peito cheio de amores, era bom que o brasileiro cuidasse do coração - e ele cuida. Em 1989 (aquele ano em que o brasileiro cometeu um de seus maiores descalabros, elegendo o Collor), 31% do pessoal era fumante. Hoje, menos de 16% tem que se aglomerar nas calçadas, nos topos dos prédios e estacionamentos, em busca de um pedaço de céu para espraiar suas fumacinhas. Como consequência, o coração do brasileiro enfarta muito menos do que há vinte anos.
Cardiologistas comemoram, mas endocrinologistas desesperam-se: nunca o brasileiro sofreu tanto de problemas relacionados a diabetes. Essa quantidade de biscoito recheado, calabresa acebolada e Fanta Uva com Fandangos uma hora iria dar problema. Era o que dizia a mãe do brasileiro, mas o brasileiro ouve a mãe? Se ouvisse, a gente não tinha demorado tanto tempo para “decolar” - eis o termo do momento.
“Brasil decola”, estava escrito na capa da revista The Economist, com a imagem do Cristo Redentor subindo aos céus, não como da primeira vez, ressurrecto, mas tal qual um foguetão. (Eu, modestamente, sempre achei que aquele Cristo, de braços abertos, preparava era um mergulho na lagoa Rodrigo de Freitas, mas fiquei contente com sua versão supersônica). Com o Redentor nas alturas, nosso destino não será apenas abrasileirar o mundo, como alardeava Darcy Ribeiro, um de nossos mais entusiasmados brasilófilos , mas tropicalizar o Cosmos.
Antes de dominar a lua, contudo, o brasileiro precisa resolver algumas pendências urgentes. Segundo a OMS, dezoito milhões de pessoas ainda não têm esgoto, em nosso país. Enquanto uns decolam, outros têm que agachar-se no fundo do quintal, apoiar-se numa bananeira e fazer a mira num buraco. Complicado. Ainda mais agora, que estamos mais altos e gordos.
