02 Maio 2011

Carpe diem?

Quem nunca alugou um filme de ação movido por aquele trailler "alucinante", capaz de deixar-nos sem fôlego, mas logo depois se decepcionou com um roteiro tão magro que aquelas cenas ora editadas não seriam capazes de salvá-lo? Difícil aguentar dez minutos de diálogos superficiais e clichês para poder curtir 1 minuto de uma boa sequência de ação (muitos nem esse escape têm).

E como nem todos filmes são movidos por cenas espetaculares e nem assistidos por possuírem um bom trailler, há então aqueles que não possuem grandes explosões, paixões fatais, traição, amizades eternas, piadas e festas, múltiplos cenários e milhares de câmeras e takes. São, entretanto, boas histórias. Histórias que assistimos do início ao fim com gosto, sem esperarmos por algo mágico, por aquele único momento em que o mocinho beija a mocinha ou que o vilão é morto em uma batalha de milhares de segundos, centenas de tiros e dezenas de reviravoltas.

E como o cinema, como tudo na vida, não é "água e óleo", é óbvio que podem coexistir bons roteiros e grandes cenas marcantes de romance, vingança, matança e tudo mais que é capaz de causar êxtase imediato ao expectador.

Até aqui, nada de novo, admito.

O erro, no entanto, é acreditar que pode haver um filme apenas feito por êxtase, apenas de ápices. Ora, não pode haver um pico sem que haja uma linha retilínea e constante que possibilite que aquele sobressaia e apareça. Não há um gênero filme-trailler e, caso houvesse, acho que muito poucos conseguiriam passar dos 15 minutos - afinal o trailler foi feito para ter apenas um e às vezes até menos.

Mas não estou falando de cinema.

Quer dizer, é óbvio que estou, mas não com o propósito de tratar do tema cinema. Como dizem, a vida repete a tela ou a tela retrata a vida, nunca sei bem. É uma discussão meio "ovo-galinha". Fato é que o trailler se assemelha muito à ideia do "imperativo do gozo" segundo a qual - em grosso modo - deveríamos viver todo dia como se fosse o último: pulando de bungee jumping ao acordar, apaixonando-nos dezenas de vezes, transando com centenas de mulheres e vivendo uma festa à cada noite, tomando porres e tendo histórias "incríveis" pra contar. Até por isso, é cada vez mais clara a onda do "carpe diem", que talvez seja a expressão em latim mais conhecida e tatuada no Brasil e no mundo. Tanto que beira à breguice. Impulsionados por essa ideia de que a vida deve ser como em um trailler, esquecemos do que dá estrutura a ela: a pobre da rotina. Afinal, com exceção de uma percentegem ínfima da população, todos temos trabalhos comuns, vivemos em lugares comuns, temos famílias e amigos comuns e seguimos as regras sociais em boa parte do tempo, a maior dela, com certeza.

E esse cruzamento entre a tentativa de viver intensamente com a realidade sádica da rotina ordinária resulta muitas vezes em uma vida-filme-trailler com cenas de grande êxtase em que o personagem trabalha de segunda a sexta, pega a mesma condução, encara o mesmo chefe carrasco e, em casa, a mulher reclamona. Na sexta-feira, extravasa: embriaga-se, "apaixona-se" por meia dúzia de mulheres em uma festa, anda correndo nu na rua e ri como se estivesse entorpecido por uma droga da felicidade - que de certo está. E que fique claro que não há mal algum em "curtir a vida adoidado". Porém, logo no dia seguinte somos obrigados a voltar à maldita rotina que gostaríamos de jogar fora e trocar apenas por dias como aquela sexta-feira "memorável" (e de preferência sem a ressaca de sábado).

E assim segue a maioria das vidas: um filme chato com poucas cenas interessantes. Às vezes nos perguntamos se vale à pena viver algo tão massacrante por alguns poucos instantes de gozo induzido.

Tenha a certeza de que, no fim dos dias, todos teremos grandes traillers para passar na frente dos nossos olhos. Afinal, ninguém leva dias morrendo (morrendo mesmo, do ato de passar dessa para melhor). Diz-se, de praxe, que vemos a o nosso filme nos últimos minutos, o que soa de imediato apropriado para um bom trailler.

O que nos diferencia, contudo, é o conjunto da obra. Tivemos uma vida da qual poderemos orgulhar do roteiro, do dia-a-dia, das relações familiares, afetivas e de trabalho? Contribuímos com alguma coisa que nos orgulhe? Porque tirar fotos em 15 monumentos ao redor do mundo, tomar um porre memorável e tão inesquecível que acabamos por esquecer (os outros que nos lembramos do que fizemos, às vezes seria até melhor apagar mesmo) todos somos capazes.

No fim, nós é que escolhemos se queremos valorizar o nosso roteiro, ou apenas ter uma boa edição capaz de "vender" a nossa incrível vida para os outros, que ao verem a história inteira, se entediarão, assim como aquele espectador desavisado que compra o filme pelo trailler. Corro o risco de parecer piégas e alguns mal-entendedores enxergarem um texto do tipo "auto-ajuda", mas que importa? A pergunta que não quer calar é: qual é a sua vida?



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