De casa, como boa parte do Rio e do Brasil, acompanho o grande evento do ano: o rock´n´rio. Mais precisamente, assisto a noite do bom, velho e autêntico metal, admitindo aqui minhas predileções musicais, pelo menos dentro do gênero abstrato que é o tal do "rock". Gênero que admite democraticamente - acho que até demais - quase qualquer coisa que tenha guitarra, baixo e bateria ou até menos: algumas tatuagens e piercings podem bastar. Mas discussões musicais, estéticas e comerciais à parte, algumas coisas me chamaram muita atenção.
(Pausa para fade to black)
... a primeira delas foi a constatação de que a última vez que eles - Metallica - vieram aqui já faz doze anos. Eu estava lá! O que me leva a concluir que não é lugar comum que o tempo passa rápido. E pode não parecer, mas em tempos de aceleradas mudanças contínuas, doze anos são muita coisa, muita coisa mesmo! Talvez doze anos agora sejam como 50 anos há 50 anos atrás. Deve haver alguma conta maluca e mais precisa, mas na falta dela, me pego pelos exemplos: naquela ocasião (do primeiro show), ninguém que estava comigo - e éramos uns 15 - tinha um celular. Orkut, Facebook, twitter? No máximo IRC e ICQ. Máquinas digitais? De forma alguma. Inclusive, lembro-me bem da proibição expressa de levar qualquer tipo de câmera fotográfica, e acreditem: não havia como esconder uma. Hoje, qualquer celular "slim" grava em HD e não há como um segurança apreendê-lo. Conclusão: acabou completamente qualquer tipo de restrição por óbvia e natural "evolução" da comunicação. Mas há bens que vem pra mal, acreditem.
Minhas grandes recordações daquele show estão vivíssimas na minha memória e agora, revendo-o pela TV, revivo-o de forma quase integral. Revivo-o e me impressiono com o quão "japoneses" (na acepção pejorativa, caricata e esteriotipada, sem medo de incorrer em preconceito) as novas gerações estão virando. Explico: como é possível, em um show dessa magnitude, com essa energia, essa eletricidade sobrenatural, ficarem vários sujeitos segurando suas maquininhas e celulares para gravarem um vídeo porco só para dizerem que "estiveram ali". Sendo que ninguém irá querer ver ou ouvir esses registros. Temos a TV passando, em breve teremos em DVD, áudio masterizado, imagem em alta definição, etc. "Na minha época" (por mais brega, impossível fugir), íamos aos shows para nos entregar de corpo e alma. Registros? Apenas histórias mágicas, que muitas vezes se tornavam ainda mais mágicas devido à falta do registro "perfeito". A memória pode nos pregar peças, mas em regra é inteligente, seletiva e criativa. "Retrato" não é arte. Ir a show só pra tirar foto, gravar vídeos e twittar em tempo real não é ir a show. Isso eu faço de casa. Ir a um show exige concentração e entrega. Exige contaminação, idolatria e desapego. Quem pode se preocupar em ter as mãos ocupadas com uma porcaria de um smartphone? Máquina nenhuma registra sentimento ou emoção. E esse é o maior "darkside" da nova era da comunicação. Todo mundo faz tudo e ninguém faz nada. Todo mundo viaja, conhece, vai ao rock´n´rio mas pouco sente, pouco interage e pouco sente. O grande sentido da vida passou ser mostrar aos outros o quão legal é a nossa vida, o quão legal é o que estamos fazendo, o que estamos vendo, aonde estamos indo.
Precisamos do reconhecimento de nós a partir do outro para nos sentirmos vivos, isso não é nenhuma novidade. As proporções recentes porém, são alarmantes. "Estive aqui", "fiz isso", etc, não importam mais se não há um ou vários "voyeurs" para apreciarem a sua vida. Talvez seja apenas a evolução de desfilar com o carro do ano e ter um casamento aparentemente perfeito, não sei...
A minha nostalgia anda na linha de outro post que escrevi aqui mesmo nesse blog. E seguindo esse saudosismo, me recordei que tínhamos sim registro fotográfico daquele show. Graças a 2 pares de pilhas escondidos em sapatos e filmes de máquina na cueca. Qual era o truque? Os seguranças não podiam confiscar a máquina, então eles esvaziavam o filme velho que a gente marotamente colocava e as pilhas descarregadas, pra depois nos revistar e obviamente não encontrar as "peças de reposição". O resultado? Batíamos 24 ou 36 fotos, dependendo do rolo, na esperança de que uma saísse boa. Na revelação, cara pra cacete, cruzávamos os dedos. Geralmente um bom registro da galera no início e outro no fim. No meio, apenas borrões e luzes distorcidas no escuro, cabeças alheias, flashes estourados e por aí ia. Valia pela brincadeira, como abrir um pacote de figurinha e de 10 repetidas, achar uma inédita. Se eu tenho alguma? Não. Na verdade, não sei nem ao certo se alguém tenho. Acho que uma velha amiga com quem não tenho mais nenhum contato tem uma do pessoal segurando uma bandeira que gastamos um dia fazendo com lençóis velhos, tinta e muita vontade de viver aquilo intensamente.
E é por essas e outras razões que reviver esse show de casa pode me trazer mais emoções reais do que em muita gente que apenas foi pra registro, pro comércio do "rock´n´rio, eu fui!". Quase que como uma virgindade, é obrigação perder, e o quanto antes! Foi bom? O que importa? O que vale é ter as provas para mostrar a todos que existiu e que foi verdade. O resto é resto....
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P.s: sem revisão alguma. Ainda tem muito show pra curtir! Abraços!
1 comentários:
Lendo seu artigo, lembrei que eu havia imaginado uma camisa com os seguintes dizeres: "Não fui ao Rock in Rio. E daí? ou "Não fui ao Rock in Rio. Incrível: Não morri!"
Abraços
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